# Um cano, um rio: o que Calgary e Maringá erraram com a água

> Calgary raciona água porque um único cano leva 60% do abastecimento. Em 2016, Maringá perdeu 91% da água quando o Pirapó inundou as bombas. A lição não é sobre país rico ou pobre — é sobre tempo de reparo.

- URL: https://ricardowgomes.com/br/blog/one-pipe-one-river-calgary-maringa
- Author: Ricardo Gomes (https://ricardowgomes.com/)
- Language: pt-BR
- Published: 2026-10-13
- Updated: 2026-10-13
- Tags: Resolve agora, Água, Infraestrutura, Calgary, Maringá

Quem morava em Maringá em janeiro de 2016 lembra do rodízio. O Pirapó subiu, inundou a captação da Sanepar, e a cidade passou dias com água chegando por bairro, em horários alternados.

Hoje eu moro em Calgary, no Canadá. Uma cidade de 1,6 milhão de habitantes, frequentemente no top 10 das mais habitáveis do mundo. E nos últimos 28 meses, um único cano decidiu três vezes quanta água essa gente toda pode usar. Neste outono vêm mais umas quatro semanas de restrição: não por seca, mas porque uma adutora nova de 6 km vai ser ligada ao sistema, e a antiga precisa sair de operação para isso.

Estudei engenharia civil em Maringá. Comecei este texto querendo dizer que Calgary deveria ter um sistema mais distribuído, como o de casa. Os números não deixaram.

Maringá, janeiro de 2016: o rio chegou nas bombas

Maringá tira cerca de 91,5% da água distribuída de uma única fonte: a captação no Rio Pirapó. O resto vem de alguns poços.

Depois de dias de chuva forte, o Pirapó subiu e inundou a captação. Cinco motores de bomba foram danificados, incluindo unidades de 1.500 cv que precisaram ser içadas e mandadas para conserto em Londrina. A Sanepar trouxe equipes de Cascavel, Foz do Iguaçu, Ponta Grossa e Curitiba. A cidade entrou em rodízio. Quando dois motores voltaram da oficina ainda com defeito, a normalização atrasou de novo.

Os bairros abastecidos por poço quase não sentiram.

Depois disso, a Sanepar investiu mais de R$ 27 milhões para blindar a captação, incluindo eletrocentros elevados acima da cota de cheia, para as bombas continuarem funcionando quando o rio sobe. O governo do estado também anunciou novos poços e um estudo do Rio Ivaí como segunda fonte.

Calgary, 2024–2026: um cano, 60% da água

A adutora Bearspaw South leva cerca de 60% da água tratada de Calgary, de municípios vizinhos e da Nação Tsuut'ina. Ela rompeu em junho de 2024 e de novo em dezembro de 2025. Cada ruptura significou semanas a meses de restrição, com proibição de uso externo e pedido de economia dentro de casa.

Os números da inspeção foram o que mais me marcou: 239 de cerca de 2.000 segmentos de tubo de quatro metros estavam deteriorados, uns 12% da linha, com 23 precisando de reparo urgente.

A resposta de Calgary agora é uma adutora paralela de 6 km, com comissionamento previsto para dezembro, mais uma adutora de 22 km no norte da cidade já em obra e outra de 25 km no sul em planejamento.

As duas cidades passam a maior parte da água por um único ativo. Percentuais aproximados.

Maringá era mais centralizada, não menos

Foi aqui que meu argumento caiu. Eu esperava que a cidade brasileira parecesse mais resiliente no papel. É o contrário: uma captação que leva 91,5% do abastecimento concentra mais risco do que um cano que leva 60%.

Então a lição não é que um país constrói melhor que o outro. As duas cidades apostaram a água numa única artéria. O que mudou foi o que aconteceu depois da falha.

A diferença é o tempo de reparo

Uma bomba alagada na captação é uma falha visível e acessível. Você espera a água baixar, iça o motor, recupera, recoloca. Dá para ter motor reserva em estoque. São dias, no máximo algumas semanas, mesmo quando a oficina devolve um motor com defeito.

Uma adutora de aço de 1.500 mm enterrada debaixo de uma rua residencial é outra história. Localizar a ruptura, escavar, esgotar a vala, cortar os segmentos, conseguir aço novo, soldar, testar a pressão, desinfetar, encher de novo. Ninguém guarda um quilômetro de tubo de grande diâmetro na prateleira. São semanas a meses.

Em software, a gente chamaria isso de diferença entre a frequência da falha e o tempo de recuperação. Um banco de dados com um único primário é um ponto único de falha de qualquer jeito. Mas um primário que você troca em cinco minutos é sobrevivível. Um que leva três semanas para voltar é a queda que vira notícia.

As duas cidades tinham alguma redundância, e ela fez diferença. Os poços de Maringá mantiveram alguns bairros normais. A ETA Glenmore é o motivo de Calgary ter tido restrição em vez de torneira seca. Nenhuma das duas tinha um segundo caminho completo para o abastecimento principal.

A regra que eu aplicaria a qualquer cidade, rica ou não: nenhum ativo sozinho deveria carregar mais de cerca de metade do abastecimento, a não ser que dê para contorná-lo (com o desvio de fato testado) ou consertá-lo em dias.

Dito de outro jeito: para cada ativo crítico, multiplique a fatia do abastecimento pelo tempo real de reparo. O maior produto é o seu risco de verdade, e essa lista cabe numa planilha.

As duas cidades estão indo nessa direção: Maringá blindando a captação e somando fontes, Calgary construindo adutoras paralelas e novas. Só precisou de uma falha em cada uma.

O que dá pra fazer nesta temporada de chuva

No Paraná, a temporada de chuva está começando. Água de chuva não substitui uma captação, mas segura o jardim, a lavagem de quintal e a descarga quando a torneira falha. A conta é simples:

1 mm de chuva em 1 m² de telhado dá 1 litro.

Descontando calha e descarte da primeira água, sobra algo como 80–90%.

Então um telhado de 100 m² numa chuva de 10 mm rende uns 800–900 litros.

Uma bombona de 200 L enche com só 2,5 mm de chuva nesse telhado.

Na maioria das casas, o gargalo é o reservatório, não o telhado.

Se quiser dimensionar uma cisterna de verdade, minha calculadora de água de chuva usa o método de Rippl da NBR 15527 e já tem séries de chuva de cidades brasileiras, incluindo Maringá.

Onde esse raciocínio falha

É uma comparação de guardanapo, não um laudo. Os percentuais são aproximados e mudam com a demanda e a estação. Os dois sistemas atendem populações bem diferentes (cerca de 430 mil contra 1,6 milhão). Não encontrei a data oficial de fim do rodízio de 2016, então não citei uma. E "conserto em dias" pressupõe peça e equipe disponíveis, o que os motores devolvidos com defeito em Maringá mostram que nem sempre acontece.

Fontes

ABRH: sistema de abastecimento de Maringá, participação do Pirapó

AEN Paraná: captação da Sanepar inundada pelo Pirapó (2016)

Banda B: motores danificados e rodízio (jan 2016)

AEN Paraná: eletrocentros elevados, mais de R$ 27 mi investidos

City of Calgary: atualização da Bearspaw South Feeder Main (inglês)

Global News: adutora leva 60% da água tratada (inglês)

CTV News: segmentos deteriorados e novas adutoras (inglês)
